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sábado, abril 24, 2010

Caracterização das personagens



Nas seguintes actualizações será possível estudar a caracterização das seguintes personagens de "Frei Luís de Sousa":

-Romeiro: o "fantasma";
-Telmo Pais: o amo;
-Maria: a criança;
-Madalena de Vilhena: a condenada;
-Manuel de Sousa Coutinho: o eterno apaixonado;
-Frei Jorge: o conselheiro.
Nestas actualizações sobre as personagens de Frei Luís de Sousa excluímos as mais passivas (Miranda, Soror Joana...), no entanto incluímos Frei Jorge pois ainda cumpre um certo papel importante na obra.


Texto original por Ovelha Negra
Livro por Almeida Garrett
Editora: Porto Editora
Data Publicação: 2006-08-17

D. João de Portugal (Romeiro): o "fantasma"

Francisco D'Orey como D. João de Portugal (Romeiro) em "Quem és tu?" de João Botelho.

D. João de Portugal é o “fantasma” omnipresente na obra e primeiro marido de D. Madalena desaparecido na Batalha de Alcácer Quibir.
A sua presença é focada essencialmente por D. Madalena (que vive atormentada com ele), por Telmo (que crê no seu regresso) e por Maria (culto sebastianista pois acredita que se D. Sebastião aparecer o mesmo pode acontecer com D. João). Esta é a sua existência abstracta (Actos I e II)
A partir da cena XIII do II acto torna a sua existência concreta pois regressa a Portugal ao fim de 21 anos, depois de 20 penosos anos em cativeiro no continente africano e asiático, como Romeiro (porém a sua real identidade é só revelada no final do acto II).
Interfere, juntamente com Telmo, na entrada em hábito de Madalena e de Manuel de Sousa, tentando impedir que tal aconteça.
No fim, assiste à morte de Maria e à tomada de hábito de Madalena e Manuel.
Texto original por Ovelha Negra.

Telmo Pais: o amo.

José Pinto como Telmo Pais em "Quem és tu?" de João Botelho.

Telmo Pais é a personagem mais indicada para a personagem principal desta obra, mesmo assim, este dado ainda é discutido.
Este tem que escolher entre Maria, que ele próprio criou, e D. João de Portugal que criou de igual modo, porém, a este último deve a fidelidade de escudeiro.
Este, fiel amo, criado e maior amigo de D. João e que sofreu como ninguém aquando o seu desaparecimento. Opôs-se ao segundo casamento de Madalena de Vilhena refutando tal acto de infidelidade para com o seu amo, cuja morte sempre rejeitou a acreditar.
Passa o seu tempo a adorar e venerar D. João. E lentamente a imagem do desaparecido vai-se tornado rígida, nítida e, sobretudo, adorada. Com o tempo a adoração crescia.
Foi então que nasceu Maria, a filha do casamento rejeitado. E por força do destino, tornou-se seu amo, nascendo um novo amor.
E é aqui onde se dá o apogeu da sua personagem levantando questões: “Telmo poderá continuar a acreditar na morte de tão adorado amo?”, “Estará D. João vivo? E se estiver? Que será feito de Maria?”.
Durante muito tempo Telmo não se consciencializa destas contradições, limitando-se a amar Maria e D. João de Portugal.
No culminar da obra, Telmo apercebe-se que tudo seria mais fácil se o seu amo estivesse morto, pois o seu retorno transtorna-lhe a vida.
E é no fim que espalha que o Romeiro não passa de um impostor, é ele quem vai matar definitivamente o seu amor que durante tantos anos desejou que estivesse vivo. Assim, Telmo quer ser coerente com o seu passado criando uma imagem – a do escudeiro fiel – com a qual se mostra e qual o qual o próprio se vê. Porém esta máscara é quebrada…
Texto original por Ovelha Negra.

Maria: a criança


Patrícia Guerreiro como Maria em "Quem és tu?" de João Botelho.

Maria é a personagem idealizada, sendo criança, caracterizada pela ingenuidade, pela pureza, pela meiguice, pela doçura… Maria é uma personagem um pouco irreal pois a inteligência, a experiência, a cultura, a intuição tornam-na numa pessoa adulta dentro dum corpo de criança.
Maria é o estereótipo de “mulher-anjo” pois é demasiadamente angelical para ser verdadeira.
Portanto, Maria é uma personagem contraditória pois revela demasiados comportamentos adultos para a sua tenra idade.Essas características de Maria são o seu culto sebastianista, o seu dom da profecia, a sua cultura, a coragem e é portadora de uma doença naquela época fatal – tuberculose.
Texto original por Ovelha Negra.

Madalena de Vilhena: a condenada


Suzana Borges como D. Madalena de Vilhena em "Quem és tu?" de João Botelho.
D. Madalena de Vilhena é, indubitavelmente, a personagem feminina da obra. É uma “mulher bem-nascida” pois o sangue que lhe corre nas veias é da família Vilhena, e cuja razão é dominada pelos sentimentos.
Esta personagem não se insere nos cânones da época clássica, em que vive, contrariamente a Manuel de Sousa Coutinho. D. Madalena de Vilhena é uma mulher que procura incansavelmente a felicidade, porém apenas encontra a felicidade imediata. Esta personagem tem o dom da aspiração vitalista de uma realização humana pouco usual.
Muito contrariamente a Manuel de Sousa Coutinho, o amor desta à Pátria é quase inexistente, apenas considerando a atitude dos governadores espanhóis como uma ofensa pessoal, não ultrapassando disso.
Para Madalena, a atitude da condessa de Vimioso (Acto II) é incompreensível pois não aceita que o sentimento do amor de Deus possa conduzir ao sacrifico do amor humano, terrestre, o amor carnal.
As personagens de Madalena de Vilhena e Manuel de Sousa Coutinho entram, em certa altura, em conflito pois esta, por seguro que o seu amor de mãe esteja, valoriza o amor de mulher opostamente a Manuel de Sousa Coutinho que valoriza mais o amor de pai.
Madalena preocupa-se com a sua condição social tal como a sua dignidade, porém tal não impediu que se apaixonasse por Manuel de Sousa Coutinho quando ainda era casada com D. João de Portugal.
Esta personagem também se destaca pela sua superstição acreditando que qualquer sinal é um indício para um “mal maior”, vivendo durante toda a obra aterrorizada pelo “fantasma” do seu primeiro marido – D. João de Portugal.
Texto original por Ovelha Negra.

Manuel de Sousa Coutinho: o eterno apaixonado.

Rui Morrison como Manuel de Sousa Coutinho em "Quem és tu?" de João Botelho
Manuel de Sousa Coutinho é uma das personagens cuja discussão sobre ser ou não a personagem principal da obra ainda se mantém acesa. Este é principalmente caracterizado pela sua nobreza e o facto de ser cavaleiro de Malta. Assim, no acto I, assume uma atitude condizente com um espírito clássico, deixando assim o leitor descobrir uma serenidade e um equilíbrio próprio de uma razão dominadora de sentimentos e que se manifesta em discursos expositivos numa linguagem cuidada e erudita.
Durante os três actos revela-se um homem patriota, corajoso e com a decisão de não sentir ciúmes pelo passado de Madalena.
Já no acto III, evidencia uma postura romântica caracterizada pela dor. A dor após a chegada do Romeiro (que mais tarde se revela D. João de Portugal), e que lhe faz desvanecer um pouco a razão pois exterioriza os seus sentimentos de uma forma complexa, contraditória (exemplo disso é o desejo pela morte da filha) e descontrolada.
Em suma, esta personagem é algo complexa evoluindo de uma personalidade de tipo clássico (Actos I e II) para uma personalidade tipicamente romântica (Acto III).

Frei Jorge: o conselheiro

Rogério Samora como Frei Jorge Coutinho em "Quem és tu?" de João Botelho.

Frei Jorge é irmão de Manuel Coutinho, dominicano, amigo da família, e é quem tenta manter um certo equilíbrio no meio de uma família gradualmente angustiada sendo o confidente nas horas de angústia, presenciando também as fraquezas de Manuel de Sousa Coutinho.

Texto original por Ovelha Negra.